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Interações Ambientais – Ilustrando o último Post

Filmagem e edição – Bernardo Stumpf

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Residência Artística – Interações Ambientais

Agitada, empolgada, inspirada, animada e com saudade, foi assim que me senti no avião na volta dos 13 dias que passei na Residência Artística Interações Ambientais, organizada pela Pensamento Tropical , em um sítio à vinte minutos de Itacaré, na Bahia.

Lá encontrei um ambiente bem diferente do meu cotidiano. Sem energia elétrica, sem internet, sem o conforto da cidade. Parece que soa ate meio brega falar sobre isso, mas a realidade é que isso fez toda a diferença.

A mata que circunda o sítio, com direito a cachoeira e tudo, não deixa com que o corpo se sinta em casa. Arrisco a dizer que me senti mais deslocada do que quando passei uma temporada no inverno dinamarquês. A internet engana, e deixa tudo mais fácil, não poder contar com a possibilidade de falar sua língua pessoal todo dia pelos meios online, deixa qualquer um meio sem saber pra onde ir. O trabalho aparece como um angustiante “scape”[1], mas ao mesmo tempo, sabemos que trabalho artístico nunca pode ser um escape, porque é difícil. Resumindo, no meio da mata, sem comunicação, sem barulho, sem a comida que se quer, concentrar-se no trabalho é a única saída.

Dentro de um proposta de trabalho “livre” tudo isso piora. A liberdade é terrível, é um angustiante meio de fechar tudo. Quanto mais livre, mais responsável, mais pressão e cobrança pessoal, e eis que surge esse monstro, eu mesma, aumentada pelo entorno, pela paisagem meio estática à olho nu. Como se eu entrasse numa casa de bonecas e por conta do tamanho da minha cabeça, fosse derrubando tudo, muito atrapalhada pelo tamanho de meu corpo, pela estaticidade, imobilidade, delicadeza e a espreita do ambiente, que me olha por vezes, mas na maioria do tempo me ignora.

Nas minhas incursões, que eu admito, bem tímidas, junto à mata, um pânico interior, medo de cobra, de rescorregar, de escorpião, se sapo (de sapo!), fui descobrindo essa crueldade da natureza, imóvel, silenciosa e indiferente. Tudo isso obviamente, se você buscar uma complacência, meio ridículo, eu sei, mas no fundo era isso. Coisa de gente criada na cidade. Mas fui além das expectativas, andei no mato, subi nas pedras, desci barrancos, subi em árvores. A idéia era me moldar, deixar que isso, esse ambiente, me movesse, me transformasse de alguma maneira, fisicamente.

Fui pra lá acompanhada de ideias bem gerais sobre um espetáculo, ou uma demonstração, ou qualquer coisa que se possa mostrar para alguém, ideias bem insipientes, bem externas, e até teóricas. Apesar do espaço de tempo, enorme para pensar, tentei ir além disso, muitas vezes brigando comigo mesma, com a vontade de ficar segura dentro de casa lendo um livro, ou no estúdio, fazendo coisas que sempre faço. 

Mas  a proposta de ir para fora e encarar aquele ambiente também me impulsionava. Me estimulava a sair e descobrir coisas.

Nos primeiros dias, passei muito tempo  me sentindo completamente deslocada. Não havia espaço para movimentos, sons, até pensamentos, quando relacionados à uma maneira de expressar artisticamente parecia ingênuo, perto da crueza de uma realidade pulsante frente a todos os sentidos. A intensão de fazer arte lutava com a realidade da vida no sítio, viver estava muito mais intenso ali do que no urbano, produzir a vida, não no ritmo frenético, não em demasia, sem compulsão, e por isso a vida num ritmo de sobrevivência impediam o impulso. O jeito era sentar, ouvir, ver, e esperar.

 Passei tempos na cachoeira, tentando falar algo, o ruído constante e forte, sem quebras, me fizeram desistir das palavras, elas realmente não tinham espaço. Cantarolar canções era menos doloroso, menos envergonhador da minha própria voz. Cantarolar como faziam as mulheres que lavavam roupas antigamente, na beira dos rios. Mas ainda assim, as letras, as palavras eram exageradas, significavam demais. Depois de passar para sons aleatórios, veio a sensação de esgotamento, não, não seria com a voz.

Levei um salto, uma sandália de salto alto, e no estilo Pina Baush, andei pela grama, pelas pedras, pela água na cachoeira, e em um barranco (s.m. Ribanceira de rio. Encosta íngreme não coberta de vegetação; escarpa. Despenhadeiro, precipício. Ravina entalhada em certos cones vulcânicos). A proposta era investigar essa extensão do corpo feminino, que é o salto, mas acabei me interessando pela corporalidade que me sugeria andar de salto em um barranco deslocando o peso do corpo para frente, com a possibilidade inerente de cair e descer a encosta rolando.

Certa de que isso me interessava, passei a tentar reproduzir no estúdio esta corporalidade, e a fazer ações com esta corporalidade. Passei certo tempo trabalhando no estúdio sobre isto, com observações de uma das coordenadoras, fui trabalhando uma sequência que chegou a vinte ou trinta minutos e que tenho comigo, esperando continuidade e quem sabe, o momento de mostrar. Mas continuava a buscar estímulos fora do estúdio.

Entre essas atividades haviam as noites, quando, sem muita luz, não era possível ler, ou fazer qualquer outra coisa, senão juntar todos os residentes ao redor mesa da cozinha e à luz de velas conversar, trocar experiências de criação, de viagens, de produção, de referências e tudo mais.

Saí destas conversas com um importante acrécimo em meu conhecimentos sobre a mitologia dos Orixás, sobre produção cultural no Brasil, sobre a história da Bahia e a certeza que o país encerra outros tantos, dadas as diferenças entre as experiências dos cinco residentes da Bahia, de Curitiba, de Portugal, do Rio de Janeiro.

Aprendi uma técnica de fotografia que me deixou encantada, a Pinhole. Fotografia aliás muito bem representada por uma fotógrafa portuguesa e uma bahiana, falamos e visualizamos produções conjuntas, interagindo teatro, dança e fotografia experimental.

As avaliações foram interessantíssimas, e a intensidade e profundidade das conversas, tendo como linha condutora nossas presenças, nossas pesquisas, nossas pessoas, encerradas e de certa forma, aumentadas, pulsante e se transformando constantemente, fizeram tudo parecer mais frágil, no bom sentido, frágil como é a vida no sítio, neste momento a arte se igualou àquele ambiente, exatamente quando possibilitou a confusão, a insegurança e a incerteza dos processos e das pessoas.

É claro que uma experiência como esta transforma qualquer artista que se deixa transformar. Esta afirmação vai muito no caminho em que pensei minha dissertação (que também foi fruto de uma pesquisa em residência), que buscava entender como se dava a criação quando os processos profissionais e a vida pessoal se tocam, e  algumas vezes, se tornam uma trama. As residências são, uma possibilidade de ver aspectos pessoais confrontados com processos criativos, adicionando-se à isto a presença de artistas diversos, de áreas diversas.

Acredito que a residência é, sem dúvida, um mecanismo de fomento artístico sem igual, durante uma residência aparecem todos os aspectos da criação e produção em arte: processos criativos, mecanismos de produção, trocas de informações sobre fomento, ampliação de redes, diálogo sobre as diferentes dificuldades e possibilidades entre áreas, e o principal, conhecimento sobre as outras artes, para longe do ostracismo das linguagens.

 

 

 


[1] Referência ao espetáculo Scape, de Guillaume Laurol/Dezeo Ito

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Pinhole – Juci Reis

Pinhole - Juci Reis

Nova residência

Depois de terminar, defender e entregar minha dissertação de mestrado (que logo estará disponível online, e eu posto o endereço aqui), resultante da minha residência na Dinamarca – Holstebro – Odin Teatret. Residência que teve momentos práticos mas estava focada na investigação teórica e um pouco antropológica (se é que posso dizer…). Inicio agora uma outra residência, na Bahia. Organizada e produzida pela Pensamento Tropical – http://www.pensamentotropical.com/. Esta, totalmente voltada para a prática e pesquisa sobre meu novo projeto que chamo por enquanto, Carlota morre no final. Do projeto prefiro não falar nada, afinal é um projeto que, apesar de ter suas diretrizes, ainda é só ideia. E começa a se desenrolar dia 21/05 na sede da produtora, um sítio, na região de Itacaré.

Minha proposta é descrever e postar aqui, momentos dos 15 dias que fico na residência. E assim continuar o espaço do blog, sem sair totalmente da proposta inicial.

De qualquer maneira a difrença entre as propostas das duas residências – Dinamarca e Bahia – já me dá pano pra manga suficiente para escrever.

Afinal só o diferencial de me enfiar no inverno dinamarquês (pensando teoricamente) e depois ir para um sítio na paradisíaca Itacaré (pensando na criação), são situações diversas o suficiente para me proporcionar algumas dúvidas e encontros. Tanto que penso muito atualmente sobre o comportamento e criação, que presenciei no Odin, afinal, não estava criando praticamente, mas observava este comportamento, e o comportamento para criação, que acredito, tem a ver diretamente com o ato de me isolar em um sítio e criar e pesquisar para criar. Mas desta segunda vez, não serei a observadora, estarei no meio do furacão, vivendo a intensidade do “claustro criativo”. Só pensamentos…. Vamos ver no que dá…..

Nos pampas

As oficinas de encerramento do projeto que aconteceram no Rio Grande do Sul tiveram públicos bastante variados. Em Porto Alegre eram pessoas da minha idade, falamos muito sobre a criação e manutenção de um grupo, as dificuldades e os caminhos que temos que escolher e abraçar ao sair do colo da universidade, a luta pelos recursos e a tentiva de acreditar numa idéia de teatro de grupo, bem complicada, cheia de contratempos e atualmente até utópica, apesar dos exemplos que existem (e que dão certo!). Em Santa Maria, com participantes mais jovens, fui surpreendida por um “entregar-se” muito intenso nos exercícios práticos, atrizes e atores muito disponíveis e uma conversa interessante sobre o que é o Odin Teatret, a partir dos livros e vídeos existentes e da minha ótica pessoal.

Em Pelotas o grupo era bem misturado, pessoas mais velhas, com experiência em grupos e alguns mais jovens iniciando agora a universidade, e vice e versa. Neste encontro, depois de alguns exercícios, sentamos pra conversar e o debate tomou o rumo das discussões de gênero, muitas perguntas foram feitas sobre o tema da minha dissertação, o que eu adorei, me ajuda muito as perguntas, e, acreditem, as críticas são maravilhosas, porque me tiram de um lugar confortável e me fazem pensar.

Neste sentido, ao fim de cada oficina e a partir do que falei sobre as atrizes do Odin, peço aos participantes que me façam questionamentos, que eu anoto cuidadosamente, mesmo os que não posso responder. Para mim parece essencial escrever na tentativa de atender a uma demanda, a uma necessidade das pessoas que formam o cenário teatral que me circunda, não faria sentido eu escrever uma dissertação que não interessasse a estas pessoas, ou que fosse somente “mais um livro sobre o Odin Teatret” (eu posso dizer que existem aos montes), por isso agradeço à todos que participam da minha escrita me perguntando coisas ou fazendo críticas construtivas ao meu trabalho.

Obrigada.

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Itajaí, de volta para o treinamento.

Durante minha adolescência estabeleci contato com o treinamento físico através da Periplo Compañia Teatral da Argentina. Esta companhia influenciou muito a educação corporal do ator do norte de Santa Catarina através das metodologias de treinamento que tinham raízes nas teorias de Grotowski, muito próximas das que o Odin praticou e que influenciaram o Lume de Campinas, por exemplo. Durante alguns anos participei do Festival de Itajaí, que mudou a cara do teatro que se fazia nesta região, sempre que podia fazia as oficinas do festival, o que me deu bases práticas interessantes para o contato que tive com o Odin Teatret nos últimos meses, práticas que presenciei e pesquisei nos livros e vídeos à minha disposição.

Voltar para itajaí e encontrar pessoas que me viram treinando dos quinze aos dezoito  anos é interessante, principalmente quando volto para contar sobre o contato com um dos grupos mais importantes na afirmação do treinamento do ator. A oficina foi parar no debate e, sentados na agradável e familiar sede da Experimentus Teatrais, juntaram-se a Cia Andante, Grupo Porto Cênico e Cia Mútua.

Não fazia sentido eu querer ensinar, ou mostrar aspectos de um treinamento que os “macacos velhos” como Laércio Amaral, Sandra Knoll, Marcelo F. de Souza, Valéria de Oliveira e Jô Fornari, já estão cansados de saber e sentir. A conversa foi profunda, orientada por um esquema que preparei e que foi percorrido naturalmente durante as quatro horas ininterrupetas de conversa. E foi genial.

Seus questionamentos sobre estrutura, financiamento, o treinamento hoje, questões sobre ética, o contato com outras culturas partindo da experiência do Odin certamente serão base para a escrita de minha dissertação, e acima de tudo voltar para o lugar que acrescentou ao meu fazer teatral o rigor do trabalho do ator, e que tem muito de minha “casa teatral”, assim como Joinville, é devolver um pouco da atenção que me dedicaram estas pessoas queridas durante a minha formação naqueles tempos.

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E para encerrar, encontros.

Com o objetivo de dividir tudo isso que agora povoa minha mente, os questionamentos que atravessam o fazer teatral: gênero, ética, práticas, vontades, realidade, construção, crises, conceitos, criação, história, trajetória, maneiras de sobreviver e de fazer sobreviver um sonho, ou um grupo.

Os encontros terão duas partes em ordem variável de acordo com o grupo.

Uma delas se debruça sobre uma vivência prática, a partir de exercícios do treinamento de Else marie Laukvik, exercícios retirados dos escritos das outras três atrizes e suas demonstrações de trabalho, mais os exercícios dos workshops de Jan Ferslev e Tage Larsen, dos quais participei em Cali. É bom salientar que o objetivo de trabalhar com estes exercícios é ajudar no conhecimento e análise do trabalho destas atrizes a partir de uma prática, e não “ensinar” técnicas teatrais do Odin Teatret.

Outra parte é a conversa tendo como pano de fundo as quatro atrizes, a partir de suas práticas de treinamento e criação, objetivando uma análise de nossas próprias metodologias de trabalho em nossos grupos de teatro, e o relato da minha residência.

Locais/datas:

Itajaí: – 29 de abril – 14 h.-  Local – Sede da Cia. Experimentus

Porto Alegre – 02 de maio – 14 h. – Local – Casa de Cultura Mario Quintana – Sala G4 – 4º andar – Rua dos Andradas, 736 – Teatro Imaginado

Santa Maria – 03 de maio – 14 h – Local – Universidade Federal de Santa Maria CAL – Centro de Artes e Letras – Prédio 40, sala 1229.

Pelotas – 05 de maio – 14 h – Local – Teatro do COP (R. Almirante Barroso, 2540)

Joaçaba – 09 de maio – 14 h – Local a ser definido

Carta ao vento

Hoje, com a demonstração de trabalho Carta ao vento, sobre o espetáculo Salt,  Roberta Carreri e Jan Ferslev encerraram meu encontro com as práticas do Odin Teatret dentro do projeto de residência. Ironicamente foram eles os primeiros que vi trabalhando. Ainda na Dinamarca me convidaram para ver os ensaios da cena que encerra o novo espetáculo e no qual ainda estão trabalhando.

Para Roberta esta demonstração é a síntese de seu momento como atriz que chama de “quarta estação”, onde já desfruta de liberdade para elaborar não só seu treinamento, mas também criar materiais e sugerir temas para espetáculos solos.

Salt nasce como idéia na ISTA de 1986, quando a temática se desenvolvia sobre questões de fronteiras e relações entre teatro e dança.

Jan e Roberta propuseram uma cena com a imagem de uma mulher vestida de negro em viagem. Mas o que ficou foi além da imagem, uma pergunta: mas o que acontece com esta mulher?

Começaram a trabalhar então com a possibilidade de que ela estivesse tomada de saudade, a palavra em português estimulava o dinamarques e a italiana a buscarem esta personagem. E segundo eles, se puseram em viagem, a viagem do espetáculo, da pesquisa que viria. Jan começou a trabalhar sobre instrumentos, Roberta a pesquisar sobre a saudade. E com as viagens do grupo buscavam objetos e instrumentos que pudessem servir ao processo. Depois, sobre o material que traziam, Eugenio começou a trabalhar também.

A arpa, que Jan tocava, sugeria a Roberta a pequena Sereia, que deixa seu mundo para buscar seu amado. Roberta uma boneca de pano de uma manta que logo a cobre e a faz dançar.

A arpa e a dança se vão e fica a melodia que passa para o bandolim.

Roberta diz, “não tentamos fazer nada de original, mas dar voz às sensações e imagens que chegam do companheiro, como num diálogo agindo sobre e com os estímulos do outro”. Da mesma maneira Eugenio traz um texto, uma história, e Roberta recomeça com este novo elemento.

Jan encontra um aquafone, que lhe lembra o canto das baleias, roberta dança lentamente, porque a sugestão é lenta, a imagem que lhe vem é Guernica, ela copia a imagem e começa seu processo de reproduzir no corpo a imagem que escolheu. Como haviam muitas crianças na imagem ela decide usar uma boneca, que Eugenio corta quando vê.

Esta demonstração de trabalho mostra principalmente a relação de resposta e estímulo que se estabelece entre os dois atores a princípio e depois com Eugenio Barba. A maneira de compor o espetáculo se diferencia por se tratar de uma colaboração evidente entre atriz, músico e diretor. De maneira que este período relembra uma construção, de um espetáculo a partir de possibilidades. Roberta insiste que não busca ser original, a maleta que usa no espetáculo, elemento segundo ela e Eugenio bastante comum nos espetáculos, não é uma idéia rechaçada a princípio, pois sua mudança pode vir com o tempo e  seu estímulo trazer novos objetos.

É interessante que a construção do espetáculo se dá de maneira bastante gradual e paciente, a sobreposição de estímulos e informações pode vir de uma música, de uma imagem, de uma sensação. A música de Jan muitas vezes leva Roberta a ter sensações que a fazem buscar novas possibilidades.

Este aspecto sensorial é bastante interessante dado que o grupo trabalha muito com as partituras, que segundo Roberta se trata de um procedimento muitas vezes bastante racional. Este momento sensorial se dá possivelmente porque ambos, atriz e músico, trabalham em conjunto e não sozinhos, mas seria interessante perguntar se os procedimentos de criação de partituras solo são compostos também a partir dessas sensações, e se sim, de onde elas chegam.

Possivelmente este trabalho tem de ser analisado a partir de um fato importante, a interferência do diretor se dá depois que já existe material pronto, e principalmente, a vontade de falar sobre determinado tema surge da atriz e do músico, para depois o diretor decidir ou sugerir outro tema. Diferentemente dos espetáculos em grupo, onde a escolha do tema se dá primeiro, quando Eugenio comunica o tema aos atores que se colocam em busca de materiais para apresentar ao diretor.

Cali ferve

Cali ferve. Não só climáticamente, mas atores, produtores, diretores, etc. se enfrentam em concepções estéticas e éticas tendo como pano de fundo os espetáculos e demonstrações do Odin Teatret. Outra conversa que esquenta o clima da cidade é o fato de que chegou por aqui, neste momento, um conceito novo, cheio de ambiguidades e pouca explicação, o teatro pós-dramático. E a reunião de encontro de grupos de teatro da Colômbia viu sua audiência se dividir entre os do “velho teatro” e os do “novo teatro”.

Não mais complicado que “antropologia teatral”, o pós-dramático tem a desvantagem de ser novo aqui, e consquistar jovens corações desavisados. Eu assisti a uma discussão interessante sobre este novo teatro se opondo a esta manifestação teatral Odiniana que circunda os espaços do festival.

Saibamos que aqui nada difere do nosso país onde as idéias chegam cheias de nós, aumentadas e/ou transformadas, vindas de uma europa meio decadente, mas que insiste em aplicar nas colônias os conceitos que só se aplicam à sua realidade. Eu acredito muito que a troca de conhecimentos é benéfica para o crescimento teatral. O problema é quando este conhecimento chega pronto, ou torcido, ou sem brechas para ser testado, e quando não dá efeito, inutilizado, e mais que isso, a falta de discernimento para simplesmente saber o que serve ou não a cada um de nós.

Tage Larsen

Mesmo falando de atrizes nesta pesquisa, intensas atrizes, quem me chamou a atenção sobre sua atuação quando assistia os ensaios de A vida crônica foi Tage Larsen.

Posso dizer sem sombra de dúvidas que Tage é um dos melhores atores que já vi em cena, sua interpretação é cheia de sutilezas e sinuosidades, e uma presença que mesmo estando sem falar nada me fez olhar pra ele sempre e me divertir com essa espontaneidade. Por isso escolhi fazer seu workshop aqui em Cali. Foram três dias de exercícios muito simples, conhecidos por todos e por quem já trabalhou com treinamento físico, terminando na criação de partituras com textos sobrepostos. Tudo muito conhecido.

Mas a simpatia e simplicidade de Tage deixaram as coisas mais interessantes, como por exemplo, dizer que não precisávamos manter um ritmo frenético nas caminhadas porque ele sabia que “a vida é dura” (sempre odiei essas caminhadas malditas!), e ao final sua declarações sobre o quanto ele tem problemas com algumas coisas que Eugênio propõe e sua vontade de fazer um espetáculo com um texto prévio, o que Eugênio não quer e que não pode, dada a sua experiência contrária. Seu novo projeto de criar uma palestra sobre Shakespeare, onde poderá fazer todos os personagens. Quem não quer fazer todos os personagens de Shakespeare?

Ou como estes exercícios que acabamos de fazer na verdade não são utilizados mais (deu como exemplo Las grandes ciudades bajo la luna, onde estão sentados o tempo todo, com pequenas intervenções de “partituras”), o que logo em seguida uma das participantes retrucou “mas os exercícios estão lá, no corpo de vocês” e ele “se você vê isso, ótimo” (isto é um ponto importante), o quanto os fiéis seguidores do Odin vêem neles o que na verdade nem eles estão interessados mais.

Enfim, descobri porque Tage me interessou tanto nos ensaios de A vida Crônica, foi exatamente porque Tage tem uma personalidade sincera que transparece em cena e uma tranquiliadade em assumir suas opiniões que me encantou.

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